26/03/2014

Relatos das Bebedeiras dos Índios





Em 1646,os jesuítas que tentavam evangelizar os índios no Rio de 
Janeiro tinham um problema. As aldeias onde moravam com os nativos 
ficavam perto de engenhos que produziam vinhos e aguardente. Bêbados, 
os índios tiravam o sono dos padres. Numa carta de 25 de julho daquele 
ano, Francisco Carneiro, o reitor do colégio jesuíta, reclamou que o álcool 
provocava ”ofensas a Deus, adultérios, doenças, brigas, ferimentos, mortes” 
e ainda fazia o pessoal faltar às missas. Para acabar com a indisciplina, os 
missionários decidiram mudar três aldeias para um lugar mais longe, de 
modo que não ficasse tão fácil passar ali no engenho e tomar umas. Não 
deu certo. Foi só os índios e os colonos ficarem sabendo da decisão para se 
revoltarem juntos. Botaram fogo nas choupanas dos padres, que 
imediatamente desistiram da mudança. 

Os anos passaram e o problema continuou. Mais de um século 
depois, em 1755, o novo reitor se dizia contrariado com os índios por causa 
do ”gosto que neles reina de viver entre os brancos”. Era comum fugirem 
para as vilas e os engenhos, onde não precisavam obedecer a tantas regras. 
O reitor escreveu a um colega dizendo que eles ”se recolhem nas casas dos 
brancos a título de os servir; mas verdadeiramente para viver a sua vontade e 
sem coação darem-se mais livremente aos seus costumados vícios”. O 
contrário também acontecia. Nas primeiras décadas do Brasil, tantos 
portugueses iam fazer festa nas aldeias que os representantes do reino 
português ficaram preocupados. Enquanto tentavam fazer os índios viver como cristãos, viam os cristãos vestidos como índios, com várias mulheres e 
participando de festas no meio das tribos. Foi preciso editar leis para conter 
a convivência nas aldeias. Em 1583, por exemplo, o conselho municipal de 
São Paulo proibiu os colonos de participar de festas dos índios e ”beber e 
dançar segundo seu costume”.