23/03/2014

Relato de Produção da 1° Bebida Brasileira, CAUIM

O pastor protestante Jean Léry passou mais de 2 meses na região da Baía de Guanabara, acolhido pelos índios tupinambás. Nesse período ele teve a oportunidade de presenciar a produção do CAUIM (1° Bebida Brasileira ). A descrição seguinte, em grande parte relata essa experiência escrita no seu livro ("Histoire d'un voyage fait en la terre du Brésil", 1578). 


A preparação de cauim (como outras tarefas de arte culinária) é um trabalho estritamente feminino, sem envolvimento dos homens. Pedaços finos de mandioca são fervidos até ficarem bem cozidos e se deixa esfriar. Então as mulheres e meninas se reúnem ao redor da panela; levam uma porção até a boca, mastigam bem, insalivam e botam a porção em um segundo pote. Enzimas na saliva convertem essa pasta em açúcares fermentáveis (os homens acreditam firmemente que se eles fossem mastigar a pasta, a bebida resultante não seria boa). A pasta de raiz mastigada é reposta no fogo e é mexida completamente com uma colher de pau até cozinhar. Por fim, a pasta é colocada em grandes potes de barro, para fermentar.

A bebida resultante é opaca e densa, com sedimentos, como o vinho e tem gosto de leite azedo. Há variedades claras e escuras de cauim. A bebida pode ser misturada com várias frutas.

O mesmo processo é usado para fazer uma bebida semelhante com milho. Considerando que ambas as plantas crescem abundantemente ao longo do ano, os nativos preparam a bebida em qualquer estação, às vezes em quantidades grandes. De acordo com registros contemporâneos, mais de trinta potes grandes de cauim podem ser consumidos em uma única festa; e "nem o alemão, nem o flamengo, nem os soldados, nem o suíço; quer dizer, nenhum desses povos da França, que se dedicam tanto ao beber, vencerá os americanos nesta arte". O cauim pode ser consumido quietamente por uma ou duas pessoas, mas é consumido comumente em festas com dezenas ou centenas das pessoas, frequentemente de duas ou mais aldeias. O cauim também era essencial em ocasiões solenes, como a matança cerimonial de um prisioneiro de guerra e seu devoramento.

Servir o cauim em festas também é tarefa das mulheres. Cauim é consumido preferencialmente morno e, assim, as mulheres colocam os potes em cima de fogo lento na praça central da aldeia. Enquanto mantêm a bebida bem mexida, elas servem a bebida em tigelas; os homens são servidos enquanto dançam. Enquanto os homens devem esvaziar as tigelas em um gole (e, geralmente, se consomem vinte porções em uma única festa), as mulheres devem bebericá-la, saboreando-a.

Uma festa dessas poderia durar dois ou três dias, com música, dança, assobios e gritos o tempo todo. Às vezes, os homens vomitavam para continuar bebendo. Deixar a festa seria considerado uma grande vergonha. Curiosamente, os tupinambás não comem enquanto bebem, da mesma maneira que eles não bebem enquanto comem; e eles acham o costume europeu de misturar as duas coisas muito estranho.

Jean de Léry relatou que ele e os companheiros dele tentaram preparar "cauim limpo", moendo e cozinhando a mandioca ou milho, sem o processo de mastigação; mas não funcionou. Eventualmente eles se acostumaram à bebida dos nativos. Depois disso, ele acrescentou no relato: "Para esses leitores que repudiam a ideia de beber o que outra pessoa mastigou, deixe-me lembrá-los de como nosso vinho é feito pelos camponeses, que amassam as uvas com os pés, às vezes usando botas; algo que pode ser menos agradável que a mastigação de mulheres americanas. Assim como dizem que a fermentação purifica o vinho, podemos assumir que aquele cauim se limpa também".



Os missionários jesuítas, para combater o que consideravam costumes infames e 
incontroláveis,  pois as cauinagens conduziam à embriaguez e à sexualidade 
desenfreada, optaram por converter as mulheres,  que elas representavam um
elemento primordial na preparação do cauim. 

A elas cabiam todas as tarefas ligadas à preparação do cauim, desde plantação das raízes da mandioca ou do milho, à colheita dos frutos e fermentação da papa até ao fabrico dos recipientes, as cuías onde se servia a bebida. 

Eram ainda as mulheres que serviam a bebida nas cauinagens. Curiosamente, os atos de antropofagia praticados pelos Tupinambás impressionaram menos os missionários do que os dois primeiros aspectos, a embriaguez e a licenciosidade.