08/01/2014

Stevia – a planta – ou o segredo que os lobbies açucareiros querem esconder ?

Stevia rebaudiana é uma planta oriunda da América Central e do Sul, sendo usada desde tempos remotos pelos indígenas Guarani como adoçante natural e planta medicinal. As folhas da stevia (ou estévia) contêm vários princípios activos (heterósidos) entre os quais se encontram o esteviosídeo e o rebaudiosídeo que lhe conferem o seu sabor doce. Enquanto as folhas da planta têm um poder adoçante 20x superior à sacarose (açúcar comum de mesa) os esteviosídeo e rebaudiosídeo extraídos das folhas são 200 – 300x mais doces que a sacarose.
O Japão iniciou o cultivo de stevia na década de 70 devido ao alerta dos potenciais efeitos colaterais e até cancerígenos de certos edulcorantes artificiais (como o aspártamo, o ciclamato e a sacarina). A planta e os seus derivados representam actualmente 40% do mercado adoçante japonês sendo este o maior consumidor mundial de stevia. Mas na maior parte do globo o acesso a esta planta não tem sido tão fácil. De feito, embora a stevia possa ser crescida em muitos países, o uso da planta como adoçante é restringido ou banido. Em certos países o esteviosídeo e / ou o rebaudiosídeo A extraídos das folhas são apenas permitidos como aditivo alimentar, noutros como suplementos alimentar. Como exemplo, nos E.U.A. a partir de 1990 a stevia apenas podia ser usada se rotulada como suplemento alimentar. No entanto, em 2008, o rebaudiosídeo A foi autorizado como aditivo alimentar. As indústrias da cola (Coca Cola, Pepsi Cola) e alimentares (exº Cargill) foram autorizadas a patentear adoçantes à base de rebaudiosídeo A que se encontram no mercado sob diferentes nomes (exº PureVia, Reb-A, Truvia) em vários produtos alimentares. Se bem que em França o rebaudiosídeo A foi autorizado por um prazo de 2 anos, a contar de Setembro de 2009, sujeito a doses máximas diárias, apenas recentemente a Comissão Europeia deliberou o aporte diário aceitável de esteviosídeo da stevia. No entanto, os princípios activos isolados não contêm as mesmas propriedades medicinais que a planta no seu todo. Por exemplo, o rebaudiosídeo não possui qualquer actividade terapêutica reconhecida.
Apesar das restrições impostas, o saber tradicional complementa-se com as recentes descobertas da investigação científica permitindo ampliar o conhecimento das propriedades medicinais da Stevia rebaudiana:
- Não influencia a taxa de glicemia nem estimula a produção de insulina.
- A toma diária de pequenas quantidades de stevia pode contribuir para a normalização da glicemia em diabéticos.
- Não tem calorias e diminui a ansiedade por doces, sendo ideal para dietas de emagrecimento.
- Ajuda na prevenção de cáries.
- Contribui para baixar a tensão arterial, sendo ideal para hipertensos.
- Ao contrário do açúcar comum, não inibe o sistema imunitário.
- Ao contrário do açúcar comum, não alimenta a Candida albicans, podendo ser usada por quem sofre de candidíase.
- Hidrata e tonifica a pele diminuindo as rugas.
- Contém propriedades anti-bacterianas em uso tópico.
- Confere vitalidade e brilho ao cabelo.
- É resistente ao calor, como tal pode ser usada para cozinhados.
- É estável a pH ácido, podendo ser adicionada a sumos cítricos.
Precauções de uso:
- No caso de tumores estrogeno-dependentes a planta deve ser usada com cautela devido aos fitoestrogénios presentes.
- Possível alergia em pessoas sensíveis a plantas da família Asteraceae.
Em concordância à investigação realizada, em 2006, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou:
“o esteviosídeo e o rebaudiosídeo A não são mutagénicos (nem in vitro nem in vivo)”, acrescentando:
“o esteviosídeo demonstrou algum efeito farmacológico em pacientes com hipertensão arterial e diabetes tipo II”.
Resta então a questão: porque é que o tabaco que mata e o aspartame que é potencialmente cancerígeno são permitidos e a stevia continua a ser restringida em inúmeros mercados dependendo da forma como é apresentada (alimento, ou suplemento alimentar, ou aditivo…)??? Será a sombra que ela pode fazer aos lobbies açucareiros que perderiam o seu mercado?! E o que dizer do lobby farmacêutico se passarmos a ter num vaso uma planta que poderia controlar a diabetes e a hipertensão e que ninguém pode patentear porque é de todos?! O que pensar da modificação genética das sementes de stevia que se está a realizar para limitar a produção de esteviosídeo aumentando a quantidade de rebaudiosídeo nas folhas, sendo que este último que não contém propriedades terapêuticas reconhecidas? Parece que realmente a Pequena planta stevia interfere com Grandes interesses económicos… Em resposta, em Espanha – Catalunha, o agricultor Josep Pàmies, grande defensor da stevia, lidera a associação “Dulce Revolución de las Plantas Medicinales“ que defende a investigação, divulgação e partilha gratuita das propriedades das plantas medicinais como luta contra a grande indústria farmacêutica. Este projecto favoreceu uma rede de autocultivo de stevia e outras plantas medicinais um pouco por toda a Espanha.
Isto contado, não temos de ficar em pânico da próxima vez que o sector açucareiro decidir lançar mais uma manobra de marketing alertando para a falta de stocks de açúcar … podemos recorrer à stevia assim como ao xarope de agave, outras fontes mais seguras para adoçar as nossas vidas. Apenas temos de ter o trabalho de procurar a stevia e os seus derivados em dietéticas ou ervanárias em que virá possivelmente rotulada como suplemento alimentar ou cosmético ou sob a forma de esteviosídeo ou rebaudiosídeo. Como opção, a compra online da stevia em forma planta, pó ou líquido, já é possível.
Maktub
Artigo de : Sofia Loureiro
Licenciada em Química Aplicada – ramo de Biotecnologia
Doutoramento em Química do Ambiente
Formação em terapias naturais (Naturopatia, Homeopatia, Aurículo-acupunctura)
Bibliografia:
Beltrán, S., 2009. El ciclo del alimento y la salud, Escuela de Medicina Humana, III. Fundació Europea del Terapeuta & Centres Medics Creu Blanca, Barcelona.
Ferri, L.A., Prado, W.A., Yamada, S., Gazola, S., Batista, M.R., Bazotte, R.B., 2006. Investigation of the antihypertensive effect of oral crude stevioside in patients with mild essential hypertension. Phytother. Res. 20, 732-736.
Netaldea, S.L., 1998. Fitos, Vademecum de prescripción de plantas medicinales, Windows1.0 ed. Masson, S.A.
Serio, L., 2010. La Stevia rebaudiana, une alternative au sucre. Phytothérapie 8, 1-7.